A representação do rosto

Defensora pública estadual, Rosana Leite Antunes de Barros
Defensora pública estadual, Rosana Leite Antunes de Barros

A violência doméstica e familiar é a mais frequente na vida das mulheres. Apesar de as vítimas e os agressores não serem identificáveis, algumas especificidades, com o passar do tempo são possíveis perceber. Por que lesões no rosto delas?

A face possui significado diferenciado para as mulheres. As lesões corporais praticadas contra elas pelos parceiros costumam ser craniofaciais por diversos motivos.

É perceptível que a cultura Ocidental contemporânea diz que o rosto é visto com extremo valor para elas. Uma lesão nessa região é capaz de depreciar a autoestima e a imagem feminina.

O espelho se transforma em inimigo, pois, não somente as marcas ou cicatrizes estarão a acompanhar a mulher, mas a lembrança ficará indelével em uma das partes mais visíveis do corpo. Sem contar a vergonha em se buscar o atendimento médico, porquanto, as velhas ‘desculpas’ de queda de escada, tropeço, encontros com guarda-roupa deixam de fazer sentido em um mundo repleto de opressões para elas.

Através do rosto é provável conversar, sem que qualquer palavra seja dita! É no rosto que as marcas emocionais se acentuam, de forma que a maquiagem não esconderá o que o consciente estará a externar.

E, infelizmente, foi o que ocorreu com uma apresentadora de televisão em Goiás. S.A., que usa a sua imagem para exercer o trabalho, foi agredida no rosto pelo ex-namorado, dias atrás. O agressor a lesionou nos lábios, na pele e no músculo.

Para retratar o fato, corajosamente gravou um vídeo que circulou em suas redes sociais, mostrando os machucados na face. Precisou se submeter a cirurgia para a correção das lesões sofridas. Inclusive, no vídeo é possível visualizar que houve uma fissura em sua boca, de forma a causar uma abertura que perfurou o lábio em todas as camadas da pele.

As pesquisadoras Cláudia Valéria Abdala Lamoglia e Maria Cecília de Souza Minayo concluíram em estudo realizado e divulgado no artigo Violência conjugal, um problema social e de saúde pública: estudo de uma delegacia do interior do Estado do Rio de Janeiro, que o rosto da mulher foi o locus corporal mais visado pelos golpes violentos perpetrados por cônjuges agressores.

Sem contar que a face é o cartão de visitas de toda e qualquer pessoa. Assim, a humilhação em ser ferida no local em que primeiro é externado corporalmente, causará um misto de sentimentos negativos, abalando psicologicamente a mulher.

Segundo relato de uma vítima: “o tapa na cara fez destruir em minha mente a parceria que havia imaginado, pois, parceiros não podem humilhar uns aos outros, não é?”.

Apesar de as marcas ficarem para sempre, quando a cicatriz aparece após a lesão, o fato de levantar as mãos como sinal de quem deseja agredir, ou, ainda, apontar objetos como ameaça de atirá-los contra a companheira, já trará marcas insuperáveis.

Os feminicídios são crimes silenciosos. Muitas vezes estão sendo construídos dias após dia em atitudes que podem ser percebidas, bastando um pouquinho de atenção. Existe vida saudável ao sair do ciclo da violência doméstica.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

Compartilhe

Share on facebook
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

Publicações Relacionadas

A volta das coligações nas eleições proporcionais, reunindo partidos políticos diversos, é o assunto que sobrou da intentada minirreforma eleitoral, nada obstante o Brasil…
Na data de 14/07/2021, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso dá mais um salto em direção à plena juridicidade de seus…